História do som
Música ao vivo x Música mecânica
Como se sabe, a distinção visa a diferenciar a música executada em tempo real daquela cujo som é produzido por um dispositivo mecânico que lê gravação feita anteriormente. Mas, nem sempre foi assim.
Até a invenção do gramofone, a própria idéia de “música ao vivo” não existia, pois a música só podia ser mesmo ao vivo. O acesso à arte musical era restrito a quem podia freqüentar os espaços fechados e as salas de concerto daqueles tempos.
Os primórdios - O primeiro artefato capaz de gravar sons num suporte material foi o fonógrafo, inventado por Thomas Edison e patenteado em 1878. O fonógrafo gravava sons num cilindro recoberto de cera. Era um sistema caro, o que inviabilizava a fabricação em série.
A revolução começa em 1886, quando o judeu alemão Emile Berliner passa a desenvolver, nos Estados Unidos, o que seria sua principal contribuição à humanidade: o gramofone, com disco plano para registrar os sons, em substituição ao cilindro de Edison, e a matriz de impressão dos discos, para produção em grande escala.
A música foi assim libertada dos espaços confinados e levada à imortalidade, tornando-se logo um produto acessível ao consumo popular.
Tendo-se mudado para Montreal, no Canadá, Berliner inaugurou aí, em 1900, a Gram-O-Phone, primeira gravadora e fábrica de discos do país. Em um ano, são vendidos mais de dois milhões de discos de música popular, concertos clássicos, hinos nacionais e até cantos tribais de índios nativos.

Emile Berliner e o gramofone, que inventou em 1886
O primeiro disco gravado no Brasil - O lundu “Isto é Bom”, de Xisto de Paula Bahia, foi a primeira música gravada no país, na interpretação do cantor Bahiano. O disco foi gravado no Rio de Janeiro em 1902, pela Casa Edison, de Frederico Figner, um checoslovaco de origem judaica que trouxe dos Estados Unidos o gramofone de Berliner.
Do gramofone ao DVD - Nos mais de cem anos que nos separam da primeira música gravada no Brasil, o sistema de gravação vem se aperfeiçoando. Os primeiros discos evoluíram para os de 78 rpm (rotações por minuto), em que podiam ser gravadas duas músicas de até 3 minutos cada.
No início dos anos 50, aparecem os primeiros long-playings (LPs) de 10 polegadas, com a velocidade de 33 rpm. Em 1954, surge o LP de 12 polegadas, que hoje atende pelo apelido de “bolachão”. Em 1979, é inventado o CD e, por último, o DVD. O que virá depois, não sabemos. O fato é que parece haver uma certa dicotomia entre música ao vivo e música mecânica.
O que é preferível, música ao vivo ou música mecânica? Vamos colocar a questão sob dois aspectos: o ponto de vista do público e o do artista.
O lado do público - A possibilidade de se gravar sons num suporte material veio favorecer o acesso da imensa maioria à arte musical. O que até fins do séc. XIX era privilégio de poucos, tornou-se uma arte popular. De fato, é difícil imaginar uma casa onde não se encontre um disco com música gravada.
Por outro lado, a facilidade com que o público tem acesso hoje ao trabalho de seus artistas através dos CDs e DVDs impulsionou a afluência desse mesmo público aos grandes shows e às pequenas apresentações ao vivo.
O lado do artista - A música gravada tem o condão de possibilitar que o artista tenha seu trabalho conhecido por um número de pessoas bem maior que o que ele atingiria apenas com apresentações ao vivo. Um músico que tem CD gravado tem mais chances de divulgar sua arte do que outro que ainda não gravou um material próprio.
Gravar um CD hoje não é tão difícil e nem custa tão caro. Uma vez gravada a matriz, a duplicação, em quantidades pequenas, é relativamente fácil e barata. Isto atende aos anseios do artista local que se propõe atingir o público de sua cidade e localidades vizinhas. É o caso dos músicos que tocam em barzinhos e lá vendem seus CDs.
As dificuldades aumentam quando o músico passa a sonhar com uma distribuição mais abrangente. O primeiro problema a enfrentar é o custo da produção em quantidade. Superado esse obstáculo, vem o mais complexo: a cadeia de distribuição e a divulgação.
Se a produção for independente, a distribuição e a divulgação também deverá sê-lo. Como um artista isolado não tem uma estrutura voltada à distribuição e à divulgação, a viabilidade de um projeto abrangente fica comprometida. Nestes casos, a saída mais comum é o que se vê com freqüência: o músico opta pela duplicação de CDs em pequenas quantidades, que tenta vender no varejo em bares, restaurantes e outros locais onde se apresenta.
O artista produzido - Coisa bem diversa ocorre se um artista consegue cair nas graças de um selo nacional. Isto acontece em duas hipóteses. A primeira, mais freqüente, é aquela em que o artista é “descoberto” por um produtor que nele vê chances de sucesso (leia-se: “lucro”), tenha talento artístico ou não.
O artista é devidamente “produzido” para ser “vendido” e “fazer sucesso”. Esse produtor está geralmente associado à mídia. Assim, o artista cria e interpreta, o produtor produz, a mídia divulga e a rede distribuidora vende.
Fechado o circuito, uma vez que agora tem em mãos um artista “de sucesso”, o produtor o explora uma vez mais na produção de shows. Todos ganham. O artista pode ficar rico e famoso, mas geralmente perde sua liberdade. Quase tudo, desde a imagem até o próprio repertório a ser gravado e apresentado em shows, é decidido pelo produtor.
O artista de talento - A segunda hipótese, mais rara, acontece com o verdadeiro artista que consegue ser apresentado a um selo de distribuição nacional por outro artista ou personalidade bem conhecida. Neste caso, as chances de sucesso nacional e de exposição maciça na mídia são pequenas. A grande vantagem para o artista é ter seu trabalho distribuído nacionalmente e, ao mesmo tempo, ter preservada sua liberdade de criação e a garantia de algum retorno econômico que lhe permita trabalhar e viver com dignidade.
A dicotomia - É vã a tentativa de opor música ao vivo e música mecânica. São lados de uma mesma moeda, aspectos da mesma realidade. Assim, a música mecânica não pode ser vista como vilã do músico de bar, porque esse mesmo músico sonha um dia gravar suas canções num CD e distribuí-lo ao maior número de pessoas possível.
Vista a questão do outro lado, qual é o colecionador de CDs e DVDs que não gosta de ver e ouvir seus ídolos de perto, ao vivo, ou mesmo um cover bem feito deles, num barzinho aconchegante? Porque, bem no fundo, a música mecânica, seja reproduzida num CD player, no rádio, na TV ou no cinema, é virtual. Sempre fica faltando algo, que só se completa quando a coisa acontece “ao vivo”.
Afeto e emoção - O artista e seu público vivem uma simbiose. Um depende do outro. O contato entre eles através do CD é indireto e envolve dois aspectos: o comercial, que é inevitável, e o afetivo, o mais desejável e importante.
Do mesmo modo, o contato direto do artista com seu público, sem intermediários, ao vivo e em cores, envolve os mesmos aspectos, mas aqui, o afetivo assume uma dimensão muito mais marcante e significativa, carregada de emotividade.
É ao vivo que artista e público se completam num nível que fica difícil descrever por simples palavras. Talvez a letra da canção “Nos bailes da vida”, de Milton Nascimento e Fernando Brandt, traduza um pouco o que essa realidade significa. O público, presente, ali à sua frente, é a razão de ser do artista. É por isso que “todo artista tem de ir aonde o povo está”.
Fonte: www.edgarnascimento.mus.br
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